Como o biogás resolve dois dos problemas mais sérios da humanidade?

A preocupação ambiental é uma questão cada vez mais evidente. O ritmo acelerado de mudanças, o consumo exacerbado e os novos padrões de vida resultaram em um conflito constante com a natureza. Com a obsolescência e o estímulo constante ao consumo, também nunca produzimos tanto lixo quanto agora.

Segundo o Sistema Nacional de Informações de Resíduos (SNIR), o Brasil produziu 78,4 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) em 2017, sendo que 3,9% foram reciclados e destinados a compostagem, 59,1% destinados a aterros sanitários, e o restante, equivalente a 20 milhões de toneladas (ou 37% de todos os resíduos), foram despejados em lixões ou aterros controlados por 3.352 municípios.

Enfrentamos ainda o grande desafio desuprir a demanda energética mundial, que em breve deverá ser alimentada com novas fontes de energia. Estimativas apontam que as fontes de energia fósseis devem acabar em um futuro próximo, e devemos ser capazes de manter nosso estilo de vida atual com outras fontes.

E se pudéssemos ajudar consideravelmente no problema de descarte de lixo e ainda conseguir gerar energia a partir disso? 

É essa a promessa do biogás. Entenda tudo neste artigo: 


Problema de destinação do lixo 

Primeiro, vamos entender a questão do lixo no país. A falta de destinação adequada do lixo é um problema evidente em grande parte das cidades brasileiras. O país produz 240 mil toneladas de lixo por dia, e ainda enfrenta o desafio de organizar a destinação dos resíduos. Por isso, algumas medidas foram implantadas para tentar auxiliar neste propósito e orientar a população, empresas e organizações: 

Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS)

 A Política Nacional de Resíduos Sólidos é a Lei Federal nº 12.305/2010, criada em 2010, tem como objetivo a gestão integrada de resíduos sólidos no Brasil, desde resíduos domiciliares, industriais e até resíduos perigosos (corrosivos, tóxicos e etc.). Os únicos tipos de resíduos não abrangidos pelo documento são os radioativos. A medida exige transparência no gerenciamento dos resíduos, principalmente por parte de empresas e organizações. Entre alguns objetivo da PNRS, podemos citar:

  • Proteção da saúde pública e da qualidade ambiental;

  • Não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos, bem como disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos;

  • Estímulo à adoção de padrões sustentáveis de produção e consumo de bens e serviços;

  • Adoção, desenvolvimento e aprimoramento de tecnologias limpas como forma de minimizar impactos ambientais;

  • Redução do volume e da periculosidade dos resíduos perigosos.


Novo Marco Legal do Saneamento Básico

O Novo Marco Legal do Saneamento Básico, sancionado recentemente pela Lei Federal nº 14.026 de 2020, determina uma série de medidas e meta a serem alcançadas em relação ao saneamento básico do país, incluindo desde o tratamento de esgoto até a preservação de bacias hidrográficas. De forma resumida, os principais pontos do marco incluem: 

  • Meta de 99% da população com água potável em casa até dezembro de 2033;

  • Meta de 90% da população com coleta e tratamento de esgoto até dezembro de 2033;

  • Ações para diminuição do desperdício de água aproveitamento da água da chuva;

  • Estímulo de investimento privado através de licitação entre empresas públicas e privadas;

  • Fim do direito de preferência a empresas estaduais;

  • Se as metas não forem cumpridas, empresas podem perder o direito de executar o serviço.


Formas eficientes de usar resíduos 

Além de determinar e reformular diretrizes e orientações sobre a forma como lidamos com o lixo, autoridades têm incentivado formas sustentáveis de fazer isso, investindo na reutilização de recursos e reaproveitamento de elementos. A PNRS, por exemplo, estabelece medidas como a educação social para consumo sustentável, criando instrumentos que priorizam a reciclagem, a reutilização dos resíduos sólidos, além de impor a destinação ambientalmente adequada de rejeitos. 

Mesmo assim, o país ainda está longe da meta ideal de destinação correta de resíduos e reciclagem.  A destinação inteligente de resíduos orgânicos, por exemplo, é uma das regras que já deveria estar em vigor. Dessa forma, seria possível destinar para os aterros sanitários apenas os rejeitos materiais que não podem ser aproveitados. 

Atualmente, o que acontece é que os resíduos são depositados em aterros a céu aberto sem nenhum controle ambiental ou tratamento. Além de produzir o gás natural metano, um dos agravadores do efeito estufa, a decomposição da matéria orgânica gera o chorume, também altamente poluente.

É neste ponto que o reaproveitamento energético se apresenta como uma solução. O lixo pode ser transformado em biogás, ajudando ao mesmo tempo no problema da destinação adequada do lixo e no suprimento da demanda energética. 

Como funciona o processo de transformação de lixo em biogás?

O biogás é produzido a partir da decomposição da matéria orgânica (resíduos orgânicos) por bactérias. No caso do lixo, a produção do biogás se baseia no gás metano produzido pelos resíduos. Isso significa que a matéria orgânica sofre degradação por bactérias, produzindo o biogás.

Nos lixões a céu aberto, o metano e o gás carbônico são liberados para a atmosfera, poluindo o meio ambiente. Por isso, muitos aterros sanitários possuem um sistema de captação dos gases liberados na fermentação do lixo e que são levados para os flares, onde são queimados e o metano se transforma em gás carbônico, que gera menos impactos no que tange o aquecimento global.

O principal equipamento para o tratamento anaeróbio de resíduos é o biodigestor. Trata-se do equipamento utilizado para promover o ambiente ideal de fermentação do biogás (sem oxigênio) e para armazenar os gases por um período. Os modelos de biodigestores variam muito de acordo com o tipo de alimentação, frequência, a origem e o volume de resíduos e tecnologias à disposição. 

 

Vantagens 

O uso do biogás é extremamente benéfico e suas vantagens já podem ser observadas com regularidade. No Brasil, o uso do biogás seria capaz de suprir parte expressiva da demanda energética: em uma análise de Rodrigo Regis de Almeida Galvão, diretor-presidente do Centro Internacional de Energias Renováveis-Biogás (CIBiogás) e integrante da Agência Internacional de Energia (AIE), se todo o potencial de produção de biogás do Brasil fosse aplicado na geração de energia elétrica, seria equivalente a 24% de toda a demanda nacional de energia. Confira algumas vantagens do biogás: 

  • Polui menos a atmosfera, reduzindo  a emissão de metano (CH4) e de dióxido de carbono (CO2), causadores do efeito estufa;

  • Reduz a poluição hídrica;

  • Obtenção de créditos de carbono;

  • É um processo natural para se tratar resíduos orgânicos;

  • Nas áreas rurais, a chegada do biogás poderá substituir os fogões à lenha e tratores movidos a diesel, reduzindo a poluição do meio ambiente;

  • O uso de biodigestores para coleta de dejetos humanos e animais pode auxiliar (ou até mesmo sanar) problemas de saúde pública decorrentes de dejetos carregados de micro-organismos;

  • Proporciona a destinação apropriada do lixo, evitando acúmulo de resíduos em aterros sanitários;

  • É uma fonte de energia renovável.

 

Desvantagens 

Assim como toda fonte energética, o biogás também apresenta alguns fatores desfavoráveis. Confira:

  • A quantidade de energia gerada pelo biogás não é constante, variando ao longo do período de produção;

  • Baixo grau de aproveitamento total do biogás para geração de energia;

  • O tempo para recuperar o investimento aplicado é demorado.

 

Por que o biogás ainda não é usado em larga escala? 

Agora que já vimos as diversas vantagens do biogás e como ele poderia auxiliar no problema do lixo, você pode estar se perguntando: se o biogás é tão bom, porque ainda não expandimos sua utilização? 

O país, assim como o restante, ainda apoia parte expressiva de sua matriz energética em combustíveis fósseis, como o petróleo O processo de expansão do uso das fontes de energias renováveis, até então, era um processo gradual. 

A tendência, no entanto, é que migramos para fontes de energia renováveis como o biogás de forma mais rápida daqui para frente. Além do agravamento do problema do descarte adequado do lixo, temos que contornar a necessidade de suprir a demanda energética, conforme os combustíveis fósseis se esgotam.

Fontes de energia renováveis não serão somente uma boa opção, mas sim a solução.

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